Fala ae galera, tudo bem?? Hoje um dos nossos leitores irá compartilhar uma experiência incrível de auto-conhecimento, superação e coragem. O Vicente Holanda, natural de Mossoró – Rio Grande do Norte, após um mochilão pelo litoral nordeste do Brasil encarou a travessia dos Lençóis Maranhenses sozinho, sem guia e nem companheiro de viagem, confira !!

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Atravessando os Lençóis Maranhenses sozinho e sem guia

Já estava na estrada há 4 meses fazendo um mochilão bem roots pelo litoral do Nordeste, começando no RN e partindo rumo à região norte do Brasil. Então, no dia 16 de setembro, coloquei na minha cabeça que eu teria que fazer a travessia do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses “sozinho” e sem guia.

Vista aérea dos Lençóis Maranhenses

Vista aérea dos Lençóis Maranhenses

Tanto para mim quanto para as pessoas com quem eu conversava essa ideia parecia loucura, mas já era tarde demais, pois a ideia de atravessar os Lençóis Maranhenses sem guia já havia se fixado na minha cabeça.

Comecei a me preparar fisicamente, psicologicamente e estudei sobre o parque e suas particularidades, no dia 23 de setembro parti para essa expedição, sozinho, eu e mais ninguém.

Dia 23/09/2017 – Os preparativos

Fiz meditação na praia (uma coisa que nunca fiz e nem ao menos sabia como fazer), apenas me sentei na beira da praia sozinho e comecei a simular minha vida, meus sonhos, o que poderia acontecer comigo nessa aventura e como me sobressair de possíveis situações de risco criadas por meu subconsciente.

Fui até o mercadinho localizado em frente ao restaurante do seu Chico Jacinto no vilarejo do Atins-Barreirinhas/Maranhão, comprei 2 litros de água, laranjas, bananas, biscoito, algumas paçocas e balinhas de frutas para reserva de glicose.

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Às 20:00 hs, peguei uma carona com um amigo de quadriciclo até o restaurante da Luzia, no Canto dos Lençóis, que é parada obrigatória tanto para os que querem comer o famoso camarão na brasa temperado, como para mochileiros e aventureiros que utilizam suas instalações para dormir e comer antes da aventura. O preço é 35 reais por noite no redário (que à noite faz um frio tremendo), café da manhã com tapioca e café. Dormi por lá, onde fiz mais uma meditação de uns 15 minutos para tentar sentir todo o meu corpo, as energias de tudo que estava acontecendo e tranquilizar minha mente para o que viria acontecer.

Na minha mochila eu tinha: 1 celular, 1 carregador portátil, 1 faca de mesa comum, 1 tesoura, 1 repelente, 2 tensores para joelho e (ou) tornozelo da dorflex, spray para contusão dorflex, 1 bandana para protejer a boca e nariz da areia e do sol, 1 protetor solar, 1 câmera, acessórios da câmera, 1 carregador de celular, 2 litros de água, frutas e biscoitos.

Dia 24/09/17- O Início

Era 04:30 da manhã quando comecei minha caminhada saindo sozinho para aquele mar de dunas, onde muita natureza me esperava. Sai com o auxílio da lanterna do meu celular e também utilizei o Wikiloc para demarcar o caminho que iria percorrer. Como nunca tinha utilizado esses aplicativos, esqueci de baixar o mapa para usar o programa offline, mesmo assim deu tudo certo.

Percebi observado o local naquele momento, que por conta dos fortes ventos, as primeiras dunas do parque são muito fofas, já que a areia ali é mais recente, em alguns locais, a cada passo eu tinha areia até a canela , assim, decidi caminhar um bom pedaço pela praia até chegar na 1° barraca de pescador e adentrei no parque.

Aquele banho de água fria pra relaxar o corpo e a alma

Aquele banho de água fria pra relaxar o corpo e a alma

Nesse caminho fiz 3 paradas, a uma para comer e descansar meu corpo, e duas para um banho, para descansar o corpo e relaxar a mente.

Vale lembrar que, nessa época, muitas lagoas estão secas por conta da evaporação devido ao sol intenso, vento e ao soterramento da lagoa pela areia da duna, transformando tudo em um deserto sem fim.

Foram 07 horas até chegar no 1° Oásis chamado Baixa Grande, o cansaço já tomava conta de mim, pois errei em não ter me alongado no início da caminhada nem utilizar de bastões para ajudar na propulsão.

O Oásis da Baixa Grande

Oásis da Baixa grande - Lençóis Maranhenses

Primeiro contato com o Oásis da Baixa grande

Ainda caminhei uns 30 minutos para chegar do ponto de início do Oásis, à casa dos anfitriões onde me hospedei na “Dona Loza e do seu Mano” uma família tradicional dos Lençóis com um carisma, hospitalidade e carinho que você não encontra em qualquer lugar.

Nessa casa, onde eles recebem os mochileiros e aventureiros, tentei me encaixar o máximo que pude no dia a dia da família, ajudando nas tarefas e conhecendo muito da história das gerações passadas, em busca de compreender melhor os seres humanos que ali habitam.

os amigos encontrados nos lençóis maranhenses

Da esquerda para a direita: Maciel, nora da Loza, Maria, Loza, Mano e eu.

Me banhei no rio negro, dei leite pra um filhote de cabrito recém resgatado das garras de um “Carcará” (uma espécie de gavião da fauna do local), coloquei milho pras cabras e assim foi meu 1º dia daquele intenso intercâmbio de conhecimento e cultura.

Mergulhando de cabeça na cultura local

Mergulhando de cabeça na cultura local

“Não poderia deixar de fazer uma observação sobre qual alimentação foi servida naquele local: a anfitriã e suas filhas fizeram uma galinha caipira, um prato típico da região, o qual acho que babo toda vez que lembro daquela comida caseira suculenta”.

Então dormi cedo, também para acordar cedo no outro dia e seguir minha caminhada para o 2º Oásis.

Dia 25/09/2017 – Vida no meio dos Lençóis

Como já tinha conhecimento que a Queimada dos Britos ficava próximo da Baixa Grande, resolvi sair às 06:00, já que seria mais 1 hora e 30 de caminhada até chegar em meu próximo destino, assim aproveitaria melhor o local e escaparia do sol pesado do meio-dia. Me despedi da família dos “Manos” e segui a caminhada para a Queimada.

Meu corpo ainda apresentava sintomas de cansaço e enfado nos músculos da perna, os quais eram minhas maiores preocupações em não conseguir seguir com a expedição.

Após 02 horas de caminhada com o auxílio de bastões, cheguei na Queimada, onde tive a oportunidade de conhecer a escola local, uma pequena sala de aula improvisada no meio das palhas de umas das casas existentes naquele local. Nessa sala, o professor bem jovem ministrava aula para várias crianças de diferentes faixas etárias, mas o mais importante é que apesar das condições disso tudo, essas crianças estavam tendo a oportunidade de serem alfabetizadas.

escola no meio dos lençóis maranhenses

Uma sala de aula improvisada no meio da Queimada dos Britos, outro Oásis dos Lençóis Mranhenses

Dando continuidade à minha caminhada, me direcionei até a casa do sr. Raimundo, um dos nativos mais conhecidos que dispõe de uma estrutura rústica para receber os turistas e aventureiros.

Nesse segundo dia, meu psicológico encontrava-se bem tranquilo, mas minhas pernas reclamavam muito, desconforto grande na região superior da coxa, nas laterais do joelho e tornozelos, assim utilizei meu tempo do dia inteiro para cuidar de minha saúde e das dores nas minhas pernas, então passei o dia inteiro deitado em uma das redes e conversando sobre a vida e a história daquele lugar junto ao sr. Raimundo.

Pôr do sol no Oásis

Contudo, não poderia deixar de admirar o pôr do sol de dentro daquele lugar fantástico, foi quando me levantei da rede e fui dar uma volta nas dunas próximas a casa do anfitrião, saindo através de uma estradinha estreita, caminhando no meio de um rebanho que continha aproximadamente 30 animais, dentre eles bodes, cabras e ovelhas. Fui tomando rumo, seguindo as pegadas que levavam a parte mais externa do oásis e onde tinha a duna mais alta de onde conseguiria ver melhor o pôr do sol.

Quando termino de subir a duna, avisto todo o oásis da Queimada dos Britos, e uma boa parte de outras casas que já estavam sendo soterradas pelas dunas, que os moradores das mesmas já teriam se mudado por conta disso. Nesse lugar a despedida do sol foi fantástica, avistando o rio negro, toda aquela mata nativa e vários animais se deslocando para o interior da mata, para se abrigar e posteriormente dormirem.

pôr do sol nos Lençóis Maranhenses

Ver o pôr do sol num lugar tão incrível como esse é algo que nunca mais vou esquecer.

Depois desse show natural, voltei pra casa dos anfitriões onde joguei dominó com eles e fiquei surpreso com a habilidade da neta do seu Raimundo, a pequena Lorrany de apenas 08 anos, ela realmente me deu uma surra no jogo de dominó, a garota parece que até sabia as pedras que eu ia jogar hehehe, ela tinha uma artimanhada contagem de pontos e pedras que era com uma rapidez fascinante e inexplicável para uma criança daquela idade.

Depois disso, sai correndo atrás dos porcos que entraram e estavam estragando a horta da família, dei leite pra uma cabrita novinha, enfim, um mergulho na cultura local.

amigos nos lençóis maranhenses

Da esquerda para a direita: Raimundo, “Mãe do Queimada”, Carlos Queimada e eu.

Era hora de seguir viagem, como tinham várias outras pessoas com seus respectivos guias espalhados pela Queimada, todos combinavam de sair às 04:00 da manhã, resolvi partir as 03:00 pois assim sairia uma hora na frente de todos, e não teria o risco de me encontrar com ninguém. Preparei minha mochila, reabasteci minhas garrafas com água de um filtro na casa, cortei um abacaxi, separei 04 bananas, bolacha cream cracker e uns pedaços de rapadura, deixei tudo pronto para minha partida, e assim me despedi de todos e fui dormir por volta das 20:30, colocando o despertador para alarmar as 02:30 hs.

Dia 26/09/2017 – Um lugar só meu

Acordo com aquele reggae tocando em alto e bom tom, era meu despertador me acordando para o último e mais puxado trajeto de trilha, foi quando me levantei joguei uma água no rosto, vesti minha roupa, tomei umas 05 xícaras de café preto e forte, junto com bolo e bolachas. Peguei meus bastões improvisados de galhos de cajueiro e às 03:00 hs da manhã comecei minha caminhada, claro sem esquecer de me alongar.

Ainda caminhei um bom tempo com a escuridão tomando conta de tudo, como tinha estudado um pouco sobre as estrelas e suas posições junto aos pontos cardeais conseguia tomar o rumo certo em direção a Santo Amaro, bem ao horizonte dava pra enxergar as luzes da cidade onde seria meu ponto de chegada finalizando um trekking de 03 dias.

amanhecer nos Lençóis Maranhenses

Muitos assistem o pôr do sol nos Lençóis, mas poucos tem a chance de ver o amanhecer.

Peguei o amanhecer já bem no meio das dunas, onde já não conseguia mais avistar o Oásis da Queimada, e fui continuando meu caminho. Pode até parecer coisa de louco, mas parando num breve descanso, me deparei com aquele ambiente inóspito, totalmente deserto, só eu e todo aquele amontoado de areia, lagoas, alguns pássaros, e me senti realmente no jardim do Édem. Foi quando tirei toda minha roupa e segui a caminhada pelado, e falo bem do fundo do meu coração, eu senti uma energia muito doida que me ligava diretamente à natureza, ao ambiente, era como eu fosse dali, a minha energia sintonizava com a mesma vibração natural do lugar e foi um sentimento extremo que eu nunca tinha sentido antes.

Eu estava em casa

Lençóis Maranhenses sozinho

Me sentindo no jardim do Édem

A todo instante eu me questionava sobre minha existência, sobre minha vida, sobre meus atos, sobre meus planos e esses momentos de “solidão” me servirão muito para o amadurecimento pessoal e como me tornar um ser humano melhor.

Esse terceiro e último dia foi incrível, pois eu não tinha pressa de chegar no meu ponto final, aproveitei o máximo do lugar, as lagoas mais lindas e eu me banhava em todas elas, é como se todo aquele paraíso tivesse sido deixado só pra mim, pra aproveitar da maneira que eu quisesse, e foi exatamente isso que eu fiz. Corria, gritava, dava gargalhada, conversava comigo mesmo numa sintonia magnífica, nunca imaginei que poderia estar vivendo aquilo tudo.

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Fui caminhando, encontrei várias espécies de pássaros nativos da região, vi ninhos, um bando de pássaros me colocaram pra correr por ter passado próximo a seus ninhos (tentaram me dar um banho de fezes rsrsrs), encontrei caranguejo endêmico bem no meio do Parque Nacional, e aprendi muito nesse trajeto.

É incrível como o contato com qualquer forma de vida é mais profundo nessas situações.

É incrível como o contato com qualquer forma de vida é mais profundo nessas situações.

Mais ou menos umas 09:00 hs, o sol já tinha esquentado o bastante, foi quando vesti minhas roupas, passei um pouco de protetor solar e continuei minha caminhada. O corpo já começava a apresentar cansaço e uma vez ou outra eu aumentava ou diminuía o ritmo da caminhada, para preservar ao máximo minhas energias.

Tinha momentos que sentia uma força grande emanando do meio onde eu estava que tipo me chamando pra ficar ali pro resto da vida, não sei se foi delírio mental, mas que senti isso senti de verdade e não podia deixar passar em branco esse detalhe para vocês. Cada hora que se passava mais as dunas iam ficando quentes, mais as dunas ficavam com areia bem solta, dificultando a caminhada cada minuto que passava.

Quanto mais me aproximava de Santo Amaro mais o corpo cansava, e já por volta das 10:00, no topo de algumas dunas bem altas, eu tentava avistar vegetação, que significaria que eu estava bem próximo de acabar aquela expedição.

Lençóis Maranhenses sozinho

É preciso estar preparado para aguentar o sol quente dos Lençóis Maranhenses.

Comecei a visualizar bem no horizonte o começo da mata e assim fiquei alegre pois sabia que estava no caminho certo, segui, segui e segui por mais um bom tempo, e me refrescando nas águas frias das lagoas, para que a perca de água fosse menor e o calor fosse amenizado no meu corpo.

O fim da jornada

Então quando foi exatamente 11:30 hs cheguei na penúltima duna do Parque Nacional já chegando a Santo Amaro e avistando já as torres de telefonia celular, consegui sinal e liguei para o meu pai avisando que estava tudo bem e que eu chegaria bem ao destino final.

Me acolhi um pouco na barraca de um pescador, ali a minha água já tinha acabado, então resolvi por em prática uma técnica tradicional, cavar um buraco a um metro da borda da lagoa com mais ou menos uns 15cm de profundidade e dali brotava água natural, transparente e livre de impurezas e então matei minha sede. Aproveitei para dar mergulhos na água fria das últimas lagoas e segui em direção à cidade.

Lençóis Maranhenses sozinho

Aquela última lagoa pra se despedir dos Lençóis Maranhenses.

Cheguei ao meu destino final com muito cansaço no corpo, os pés bastante doloridos, o músculo superior da coxa também doía muito, fora o cansaço mental também era enorme, mas com uma felicidade que não cabia no tamanho daquele parque de dunas, e por saber que eu tinha acabado de vencer um grande desafio pessoal e uma meta danada de boa em minha vida.

“O sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”, foi essa a primeira frase que me veio a cabeça após concluir essa expedição, pelos momentos dolorosos que passei, pelos momentos de solidão com outras pessoas, eu tinha que terminar aquele desafio com garra e perseverança, pois poderia ser que eu jamais quisesse voltar para completar aquela travessia, que por sinal é de um nível muito alto e grau de dificuldade enorme.

O maior presente que eu pude ganhar

Essa expedição valeu muito a pena, e serviu para abrir meus olhos para outra dimensão do mundo, outra dimensão das classes sociais, dos impactos ambientais e uma coisa eu falo com a experiência de quem atraveçou os Lençóis Maranhenses sozinho, não é você que escolhe chegar ao final da travessia sozinho e tudo tranquilo, são Lençóis que escolhe você como mais um contemplado em realizar essa expedição.

Lençóis Maranhenses sozinho

Num é que o aplicativo funcionou direitinho.

Eu não paguei 1 centavo nos oásis, pois os donos não me cobraram exatamente nada, o total de dinheiro gasto nessa viagem de 3 dias foi R$80,00 reais. O transporte de Santo Amaro/Barreirinhas custou R$50,00, O almoço em Santo Amaro R$20,00 e um lanche que fiz em Barreirinhas R$10,00.

Espero que tenham gostado de toda essa aventura, me chamo Vicente Holanda, tenho 25 anos e sou natural de Mossoró/RN, qualquer dúvida pode entrar em contato comigo através do perfil no instagram @a_dois_passos.


mais artigos sobre o MARANHÃO

*texto revisado por Diego Engel


Conte sua história também, essa foi contada pelo nosso amigo:

Vicente Holanda

Vicente Holanda

Direto de Mossoró/RN para o mundo. Sou apaixonado por esportes radicais, pratico rapel, parapente, kitesurf e sempre estou pronto para uma nova aventura.

 

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